domingo, 13 de abril de 2014

Quem sou eu para escrever?

Quem sou eu
Para lançar-me nesta arte de barganhar com a língua
De torturá-la ao último substantivo, ao fio de todo advérbio
E assim, furtando-lhe o sentido,
Adquirir para mim significância e razão?

Quem sou eu
Que lanço mão de viver a sanidade
Para copiar a loucura
No meu papel digital?

Quem sou eu,
Ingrato ser, que, sempre, abusa;
E dela tolhe vírgulas
Com a navalha na língua e a metralhadora no teclado?

Quem sou eu?
Sou falante, sou poeta.
Sou louco, sou americano.

Sou senão um propagandista da insanidade de todas as paixões, da loucura dos amores que subsistem por meio dos corações entregues à negação do próprio alívio.


Eis-me, pasmo: não mais sei se sou. 

Elizabeth Barrett Browning: Soneto nº 14

Se ocorrer de amares-me, deixa que o seja por causa alguma
Senão pela do amor, somente. Não fales
‘Amo-a por seu sorriso... sua aparência... suas maneiras
Por Seu falar aprazível, ou por artifício de razão
Que com a minha se entende, e certamente traz
Agradável ócio em feliz dia’
Pois tais coisas em si, amado,
Hão de mudar, ou mudarão para ti, - e o amor, tão bem lavrado,
Tornar-se-á em bruto.  Nem me ames por
Tua própria piedade de bem-amado a limpar minha seca face -
Uma criatura pode olvidar-se de prantear, mesmo aquela quem conduz
Teu duradouro bem-estar; e nisso faz perder teu amor!
Então me ama pela causa do amor, que para todo o sempre
Deves tu amar, na própria eternidade do amor.
      
       -- Créditos da tradução: Daniel Cunha Rêgo.


Do original:
(Sonnets from the Portuguese, XIV, By Elizabeth Barrett Browning)

"If thou must love me, let it be for nought
Except for love’s sake only. Do not say
“I love her for her smile—her look—her way
Of speaking gently,—for a trick of thought
That falls in well with mine, and certes brought
A sense of pleasant ease on such a day”—
For these things in themselves, Belovèd, may
Be changed, or change for thee,—and love, so wrought,
May be unwrought so. Neither love me for
Thine own dear pity’s wiping my cheeks dry,—
A creature might forget to weep, who bore
Thy comfort long, and lose thy love thereby!
But love me for love’s sake, that evermore
Thou may’st love on, through love’s eternity"