sábado, 21 de dezembro de 2013

Thelonious Monk

Ele acaricia seus cabelos. São castanhos e volumosos, mas são lindos. Quer dizer, ele os acha lindos. É algo que ele sempre quis fazer, não só querendo, mas ansiando profundamente. Parece tão idiota, tão simples e banal, mas pra ele era simplesmente o paraíso, quase um orgasmo. Não só pelo fato, não só por ela, não só pelos cabelos, não só pelo piano, mas por tudo junto. Uma soma de coisas que ele nunca havia imaginado que poderiam um dia acontecerem, e, pum!, lá estão, todas juntas. E este momento foi o epicentro de tudo, quando ele percebeu o quão incrivelmente perfeito tudo estava indo. Podia ser verdade? Algo digno de se tomar nota!

Mas não faria isso agora. A luz do seu Nexus incomodaria todos na plateia. Absorto em seus pensamentos, em se sentir realizado, mal percebera que aqueles cabelos castanhos e volumosos não eram mais os mesmos de um ano atrás. Aqueles cabelos mudaram, mas seria isso importante? Acha que não. Afinal, tais cabelos continuam sendo amados por ele. E continuam o amando, até onde se sabe e vê. Deixa passar. Não pode estragar seu momento de deleite utópico de seu próprio presente. Segue pensando.

Abruptamente, algumas memórias vêm à cabeça. E o piano começa a desaparecer, dando lugar a uma guitarra levemente desafinada, Michelle. Onde estaria ele? De repente, tudo está preto. Mas não um preto convencional, não o preto que se vê quando fecha os olhos, ou o tom de preto de um quarto escuro. Era um preto diferente. Um preto que, inexplicavelmente, lembrava um tom dramático de vermelho-batom. Um preto que aos poucos girou, girou, girou. E de repente, deu lugar a um branco ainda mais dramático, mas não somente dramático. Um branco atormentador. Um branco mais branco que o normal, como se tivesse sido lavado com água oxigenada.

E seus olhos se abrem. O branco aos poucos se dilui em formas brancas, metálicas e azuis. E castanhas. Fração de segundo se passa, e ele consegue reconhecer aquele cabelo. Ele estava volumoso e lindo, como sempre. Mas em um volume diferente. Um volume desesperado. Gira suas órbitas oculares, e reconhece uma haste metálica. E mais: formas humanas, travestidas em um azul terrível. Logo se dá conta.

Não consegue mover seus braços, nem pernas. Tenta mais forte. Consegue ao menos sentir seus dedos formigarem. Aos poucos, recupera sua audição.  Não ouve nem um piano, nem uma guitarra. Ouve ruídos distantes de carros, e outros de pessoas conversando e correndo. Tenta procurar aquele cabelo. O encontra cochilando. Procura alguma referência temporal, nada além de um relógio branco, camuflado na parede, indicando 11:25. Da manhã, deduz, pela luz que sai da janela.

Aos poucos tenta se lembrar onde estava antes de surgir ali. Estava num concerto de piano, sim! Acaba por se lembrar vagamente de um carro cintilante, que fazia barulhos perturbadores, que se mesclavam com a guitarra levemente desafinada cujo som estivera a contemplar. Era uma ambulância. E se lembra daqueles cabelos, gritando e chorando, com medo, assustados. Ele tenta gritar, está com medo também. Ele grita. Mas seu grito não provoca nenhuma reação do meio externo. Talvez tivesse apenas gritado pra si mesmo. Tenta gritar cada vez mais alto, porém seu corpo egoísta continua a aprisionar o grito.

Depois de alguns minutos de esforço, consegue um grito exterior. Ou melhor, um sussurro. Mas o suficiente para provocar movimento naqueles atenciosos cabelos. Eles vêm, correm, em sua direção. E falam, falam tanto que ele mal consegue entender. Ele tenta gritar novamente, tenta mostrar aos cabelos que está ali. Ele consegue um sussurro melhor, porém ainda nada mais é que um ruído ininteligível. Mas consegue ver os cabelos olhando para ele. Com um sorriso estampado na testa. Toca uma campainha, a porta se abre. Um vestido branco adentra o quarto. O vestido e os cabelos começam a trocar algumas palavras, das quais poucas ele consegue compreender.

“Sim..... acordadou .... doutor”
“.... vindo ...”

O tom parece feliz. Ufa. Aos poucos, luta consigo mesmo e meche os dedos das mãos. Meche muito, como se brincasse com eles, quer se certificar de que estão ali, operantes sim senhor. Grita de novo. Desta vez, parece sair uma voz rouca. “Amor?”

“Estou aqui! Pode me ouvir? Estou com você, tá tudo bem, não tem medo, tô aqui com você!”
“Amor? Amor? Tô com medo, amor!”

“Não tem medo, tô aqui, tô com você, tá tudo bem, descansa, não se preocupe, relaxe, descansa. Eu tô cuidando de tudo”

“Eu te amo.”

Os cabelos deixam escapar uma lágrima, uma singela e sincera lágrima. Eles apertam sua mão. “Eu te amo, muito, muito, de verdade... Tô aqui com você, viu? Tá tudo bem... Não tem medo!”


Ele não estava mais com medo. Talvez um pouco assustado, é normal. Resolveu analisar onde estava. Era o Vera Cruz, quase com certeza. Mas pouco importava. Não tinha mais medo. Não sentia mais dor, não sentia mais nada. Só apertava, com a pouca força que tinha, aquela mão. Ah... Algo tão simples, tão idiota. Mas incrivelmente perfeito.